11 de janeiro de 2009

Uma parada em Posto do Rio

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Numa de minhas viagens, a única vez em que parei em Posto do Rio, uma pequena vila perdida no meio da selva, me chamou atenção as histórias das pessoas que ali moravam. Gente boa, acolhedora, porém sempre desconfiada de forasteiros.

Uma mulher de aparentemente uns cinqüenta anos de idade lavava roupa, surrando-a numa tábua como minha mãe fazia quando eu era criança. Parei para conversar e sem tirar os olhos de seu trabalho me contava fatos de sua vila. Contou-me sobre a cabra que num café da manhã que valia uns dez salários mínimos, comeu todo o dinheiro de um fazendeiro dono da maioria das terras ao redor da vila. A coitada não viveu mais que uma hora por conta de seu tão caro lanche, pagamento dos homens que faziam a cerca de arame farpado de uma das fazendas. Infelizmente, foi impossível reordenar todas aquelas notas, mas aproveitaram para comer carne de cabra assada naquela noite.

Contou-me sobre a Menina Triste. Quando nasceu seu choro não era por sair de seu confortável útero materno para um mundo novo e estranho, seu choro era de infelicidade, nascer um mês e meio antes não era o seu desejo, na verdade nascer quase nunca é um desejo. Sua vontade era de viver dentro de sua mãe, sair apenas quando tivesse uma necessidade extrema e voltar logo em seguida. Contudo, ela nasceu, sua mãe não sobreviveu e como seu pai não voltava de uma caçada eterna a um mamute que apenas ele tinha visto ao redor da vila, a menina foi criada pelo avô cego que vivia de aposentadoria. A garota cresceu e raramente sorria, por isso seu nome. Um dia, quando tinha dez anos de idade ela se matou. O motivo; ela estava muito feliz e suicidou-se antes de voltar a ficar triste.

Teve aquela outra menina que apareceu na casa que os moradores costumavam chamar de amaldiçoada, um rapaz da cidade grande, filho do fazendeiro disse ter visto uma foto dela numa revista ou de outra muito parecida com nome de Viviane Ferraz, vítima de um acidente de carro junto com outros colegas numa rodovia do outro lado do país. Assim como surgiu, desapareceu depois de conversar com uma das crianças dizendo se chamar... Viviane. Os moradores costumavam dizer que sua alma estava vagando e de alguma forma esteve presa ali.

Uma vez, apareceu um homem vendendo Frutas da Verdade, quem as comesse seria impossível mentir. Pediram que ele fizesse uma demonstração. Uma moça aproveitou e fez com que seu namorado que chegava naquela hora e não sabia sobre o provável efeito da fruta desse uma mordida, quando comeu ela perguntou quem ele amava e ele respondeu instantaneamente sem se dar conta, que amava a sogra. Com essa resposta sem precisar do auxílio das maçãs da verdade surgiram outras verdades onde juras de morte e vingança tomou conta de metade da metade da vila. Para não causar mais problema e possivelmente a queda desse pequeno povoado, o vendedor foi expulso e as verdades esquecidas por todos os atingidos.

A mulher terminava de enxaguar sua última peça de roupa quando deu minha hora de ir embora. Ainda me chamou para esperar pelo café, e eu disse que tinha de terminar minha viagem, uma ambulância passava naquele instante (coisa rara por aqueles lados) e eu dependia deste automóvel para retornar desta “parada”.


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